Uma fábula sobre a corrupção: a galinha só bota ao seu jeito


Antônio, que estudou na França gastronomia, montou seu restaurante em um bairro tranquilo de Curitiba.

No começo não foi nada fácil. Uma coisa são os sonhos, outra é a batalha diária do trabalho.

As coisas começaram a mudar quando ele contratou o Pereira, como era chamado por todos. José Pereira começou como garçom e foi subindo de posto até que no segundo ano do restaurante ele já estava como gerente geral. Organizava todas as coisas, das compras à limpeza.

Pereira não tinha muito espírito para brincadeiras. Fazia as coisas e pronto. Apenas fazia. Parecia não ter um espírito ou sentimentos. Apenas cumpria as funções de manhã à noite. Com o tempo, Antônio, o dono do restaurante, foi deixando tudo na mão de Pereira. E o restaurante ia de bem para melhor.

Depois de um ano, Antônio já não aparecia mais no restaurante. Apenas checava a contabilidade, os gastos e as entradas. Como tinha conhecimento, sabia como estava indo bem. Durante duas décadas, isso mesmo, duas décadas, ele praticamente viajou pelo mundo, comprou imóveis  e estudou os filhos com o dinheiro vindo do restaurante. Gostava de ficar na beira da piscina de sua casa tomando uma cerveja e jogando conversa fora.  Praticamente não aparecia mais no restaurante. Exceto quando levava parentes e amigos para comer.

Quem tomava conta de tudo era o Pereira. Cuidava das compras e da qualidade dos produtos, fazia os cozinheiros relembrarem as receitas de tempos em tempos para manter a qualidade. Ao final da noite, fechava o estabelecimento e seguia para sua casa.

Nessas duas décadas, com o comando total do restaurante, Pereira garantia certas liberdades. Comprava dez produtos de limpeza e levava um para ele.  Parte das gorjetas dos garçons também embolsava, mas sempre redistribuía parte a todos os funcionários. Precisa desse apoio político. Na compra dos alimentos, sempre pegava um ou outro filão. Às vezes, se precisava de um dinheiro pegava direto do caixa do restaurante. Em praticamente tudo tinha uma porcentagem de corrupção, isso durante duas décadas. Pereira sempre dava um jeito de roubar um pouquinho. Para ele, não era corrupção, mas uma forma de compensar sua dedicação. Os produtos venciam e Pereira pedia para algum funcionário jogar fora, era uma senha para ele levar para casa e aproveitar o produto. Nenhum produto era servido com prazo de validade vencido.

O Antônio, tipo bonachão, até poderia perceber algo aqui ou lá, mas fingia que estava tudo bem. Afinal, todos os dias sua conta ficava mais gorda. Tudo depositado pelo Pereira. Mas Antônio ficou mal de saúde não pode acompanhar nem de longe o restaurante.

Foi aí que Serginho, o filho do Antônio, resolveu cuidar do patrimônio da família. Começou a trabalhar no caixa do restaurante e ajudar Pereira na administração. Logo percebeu o desfalque de uma coisa aqui outra lá. Não teve dúvidas, mandou Pereira embora. Sumariamente.  Os funcionários, que sabiam das levadas do Pereira, ficaram atônitos, mas depois gostaram. Acharam que Serginho fez a coisa certa. “Como pode ficar aqui roubando?”. Todo mundo ficou animado.

A notícia foi espalhada para os clientes que perguntavam sobre o gerente que ficou 20 anos no restaurante. “Foi mandado embora, corrupção”, diziam os funcionários. Todos os clientes, sem exceção, concordaram com a decisão de Serginho. Era unânime. Quem é a favor da corrupção? Só se for muito canalha, diziam.

Serginho também aumentou os preços dos pratos e o restaurante passou a dar mais dinheiro por alguns meses. Sucesso. Reduziu também a qualidade de alguns produtos porque estavam muito caros, aumentando ainda mais a lucratividade. As comidas vencidas passaram a ser aproveitadas. Não dava para ter esse prejuízo. A lucratividade do restaurante estourou. A família ficou impressionada com os avanços e a quantidade de dinheiro que saía do restaurante. E Serginho praticava a sua própria corrupção contra a corrupção do Pereira. Aliás, Pereira ficou conhecido como o grande corrupto, o ladrão, o bandido.

Mas o tempo é um inimigo da pressa e da astúcia. Após alguns meses, as mesas começaram a ficar vazias. Alguns clientes achavam caro, outros passaram mal e nunca mais voltaram e outros simplesmente diziam que a comida não era a mesma. Quando mais decrescia o movimento, mais Serginho exigia e reordenava a conta para aumentar a lucratividade. Em menos de um ano, o restaurante estava operando no vermelho.

Os funcionários tiveram as gorjetas cortadas, depois foram demitidos alguns e assim o restaurante foi entrando em decadência até fechar as portas. Sim, todos os funcionários foram demitidos. O prédio foi colocado à venda. E a família perdeu a galinha de ovos de outro.

Moral da história: a galinha só bota ao seu jeito.

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